segunda-feira, 16 de dezembro de 2013


Alice Munro, prémio Nobel da Literatura 2013


 
 
Alice Munro, é uma escritora canadiana de contos, considerada uma das principais escritoras da atualidade em língua inglesa. É a grande vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2013.

Alice Munro nasceu em Wingham, Ontário, a 10 de julho de 1931. Viveu primeiro numa quinta a oeste dessa zona, numa época de depressão económica. Munro reconheceu a influência na sua obra de grandes escritoras, como Katherine Anne Porter, Flannery O’Connor, Carson McCullers ou Eudora Welty, bem como de James Agee e especialmente William Maxwell. Os seus relatos centram-se nas relações humanas analisadas através da lente da vida quotidiana. Por isso, e pela sua qualidade, tem sido chamada "a Chekov do Canadá".
Foi por três vezes vencedora do prémio de ficção literária «Governor General's Literary Awards», do seu país. Em 1998, Alice Munro foi premiada pelo National Book Critics Circle dos Estados Unidos, pela obra "O amor de uma mulher generosa".
O galardão, no valor de oito milhões de coroas suecas (925 mil euros) foi anunciado pelo secretário da Academia de Ciências Sueca no histórico edifício da Bolsa, na baixa de Estocolmo.

Nos últimos 10 anos, o Nobel da Literatura distinguiu nomes como o chinês Mo Yan (2012), o sueco Tomas Tranströmer (2011), o peruano Mario Vargas Llosa (2010), a alemã de origem romena Herta Müller (2009), o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio (2008), a britânica Doris Lessing (2007), o turco Orhan Pamuk (2006), o britânico Harold Pinter (2005), a austríaca Elfriede Jelinek (2004) e o sul-africano J.M. Coetzee (2003).

 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

" O estrangeiro" ,de Albert Camus


”O Estrangeiro”, de Albert Camus

L'Étranger (em português O estrangeiro) é o mais famoso romance do escritor Albert Camus. A obra foi lançada em 1942, tendo sido traduzida em mais de quarenta línguas e recebido uma adaptação cinematográfica realizada porLuchino Visconti em 1967.Uma obra que marca a literatura do séc. XX e o pensamento de quem a lê. Decide-se aqui o destino de um homem que matou outro. Por causa do sol. Não há perdão nem arrependimento, só o absurdo.
Faz parte do "ciclo do absurdo" de Camus, trilogia composta de um romance (L'Étranger), um ensaio (Le mythe de Sisyphe - O mito de Sísifo) e de uma peça de teatro(Calígula) que descrevem o aspecto fundamental de sua filosofia : o absurdo. O romance foi traduzido em quarenta línguas e uma adaptação cinematográfica foi realizada por Luchino Visconti em 1967.

 

Mersault recebe a notícia da morte da mãe através de um telegrama: “Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Fica-lhe a dúvida se terá morrido naquele dia ou na véspera. Imediatamente nos dá conta de que pediu dois dias ao patrão e de que à má cara deste respondeu: “A culpa não é minha.”

O protagonista passa logo às questões práticas: pedir emprestados uma gravata preta e um fumo, almoçar e dirigir-se ao autocarro que o levará ao asilo onde a mãe residia. Dormiu durante quase toda a viagem. “Por agora, é um pouco como se a mãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso arrumado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial”, pensou, antes de viajar.

Um primeiro contacto desconcertante com uma personagem que nos irá perturbar até ao fim do livro. E para além dele

Completamente exterior às convenções e à moral vigentes, Mersault é um verdadeiro “estrangeiro” em qualquer organização social ou familiar. Cometerá um homicídio sem razão aparente que não a do calor excessivo na praia ou a da forte luz do sol que sobre ele incidia directamente quando disparou. Mersault não tem justificação para o crime nem para o resto. Nada do que faz é para ser explicado. Eis o absurdo da sua existência ou de qualquer outra.

Albert Camus (Nobel da Literatura em 1957) apresenta-nos assim uma personagem estranha, demasiado estranha até para si mesma. Porém, não se consegue deixar de gostar dela e desejar defendê-la quando todos a acusam e condenam. Mas não podemos, as nossas regras não são as dele. Para ele, tudo é permitido — “visto que Deus não existe e visto que se morre”.

O protagonista será julgado e condenado. Fica a dúvida se Mersault é sujeito à guilhotina pelo crime cometido ou por não ter chorado no funeral da mãe, por ter ido logo depois até à praia nadar, ter visto um filme cómico e ter feito amor com uma namorada recente. Não fez o que dele se esperava, essa é a sua grande culpa.

Centenário de Albert Camus - um visionário com o futuro interrompido

Camus, o mal-amado




Cem anos após o seu nascimento, em 7 de novembro de 1913, Albert Camus continua a ser um ícone da literatura francesa e mundial por seu pensamento visionário, sua sede de justiça e seu caminho excepcional. Hoje quase esquecido e pouco lido lutou contra todas as formas de totalitarismo e contribuiu com os seus romances, ensaios e peças de teatro para iluminar a condição humana num tempo de trevas morais.
Dos bairros operários de Argel ao prémio Nobel de Literatura aos 44 anos, este destino fora do comum foi tragicamente interrompido aos 46 anos por um acidente de carro em pleno centro da França, em 4 de janeiro de 1960.
Camus nasceu no bairro desfavorecido de Belcourt, em Argel. O pai, meio argelino, meio francês, foi morto na batalha de Marne, na 1ª Grande Guerra. A mãe, meio surda-muda, meio espanhola, era analfabeta e mal conseguia o sustento para o filho como criada. Camus cedo se revelou um estudante exemplar, ao receber, em 1924, uma bolsa de estudos para o Liceu de Argel. Aí permaneceu até 1932, fazendo parte das actividades atléticas escolares, que acabou por interromper ao contrair tuberculose inócua que lhe deixou mazelas para toda a vida.
A partir de 1935 ocupou vários postos de trabalho na capital e, depois de se filiar no Partido Comunista, conseguiu licenciar-se em Filosofia pela Universidade de Argel, em 1936. Partiu então pela primeira vez rumo à Europa, na esperança de melhorar a sua condição pulmonar, agravada pelos sopros arenosos e abrasadores do deserto do Sara.
Em 1937 publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de ensaios com o título L'Envers Et L'Endroit (O Avesso e o Direito). No ano seguinte passou a trabalhar como jornalista no Alger Républicain, chegando a fazer uma reportagem detalhada sobre a condição dos muçulmanos da região de Cábila, que lhe valeu as atenções do público e das autoridades governamentais.
Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, Camus publicou Noces (1939), uma colectânea de ensaios que reflectiam o estado de espírito consequente ao seu divórcio de Simone Hié, morfinómana com quem havia casado alguns anos antes.
Juntou-se ao movimento da Resistência Francesa e, em 1942, publicou um dos seus romances mais conhecidos, L'Étranger (O Estrangeiro), obra que havia começado a compor na Argélia antes do começo da guerra, e que dava início ao estudo do absurdo, constante no seu trabalho, e que representava a prova aparente, segundo Camus, da não existência de Deus. Também em 1942 apareceu o ensaio filosófico Le Mythe de Sisyphe: Essai Sur L'Absurde (O Mito de Sísifo), em que ajuntava o conceito do suicídio ao marasmo do absurdo (termo que havia de caracterizar a problemática existencial de toda uma geração de autores e pensadores) da vida.
Em 1943, juntamente com Jean-Paul Sartre, fundou o jornal de esquerda Combat, de que foi editor até 1947, ano em que publicou o seu terceiro romance, com o título La Peste (A Peste), uma alegoria à ocupação da França pelos Nacional-Socialistas em que os comportamentos humanos em situações extremas são cuidadosamente analisados. Rompendo pouco tempo depois com Jean-Paul Sartre, líder da corrente existencialista, Camus publicou L'Homme Revolté (1951, O Homem Revoltado), colectânea de ensaios dedicados à génese histórica do Ateísmo. La Chute (1956, A Queda) retoma pela narrativa a problemática da justiça humana, sempre em torno da célebre frase de Dostoievski: " Se Deus não existisse, tudo seria permitido".
Com cerca de oito milhões de exemplares vendidos, "O Estrangeiro", seu primeiro romance publicado em 1942 e traduzido em mais de quarenta línguas, é seu best-seller absoluto.

"A peste" vendeu quatro milhões de exemplares e as vendas de todos os seus livros publicados aumentaram em 4,5% entre 2008 e 2012, segundo a editora do escritor, Gallimard, que considera ser ele "certamente o escritor francês do século XX mais conhecido, mais citado e mais traduzido no exterior", com uma obra composta por mais de 30 publicações, incluindo peças teatrais.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dia Internacional das Bibliotecas Escolares
 
28 de outubro
Momentos de leitura
(em todas as turmas)

10 h 05 m

e

15 h 10 m

PARTICIPEM!
A Equipa da BECRE apela à colaboração de todos os professores e alunos para comemorarem o Dia das Bibliotecas Escolares com atividades de leitura!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Álvaro Magalhães - 30 anos de carreira


                                             

Álvaro Magalhães - 30 anos de carreira literária
 
O escritor Álvaro Magalhães assinala 30 anos de carreira com a publicação em outubro de mais um livro - o romance para jovens "O rapaz dos sapatos prateados", diário ficcionado de um rapaz de nove anos que vai descrevendo a sua vida, a caminho da adolescência.
      

"Tinha seis anos quando percebi que o mundo não rimava comigo e experimentei a dolorosa solidão dos diferentes", assim começa a história na qual Álvaro Magalhães coloca uma criança a falar sobre a poesia, o amor, Deus, o inferno e a morte, segundo a editora Asa.
O livro, que conta com ilustrações de Patrícia Furtado, é o terceiro romance para jovens de Álvaro Magalhães, publicado pela Asa, juntando-se a "A ilha do chifre de ouro" e "O último Grimm".
Álvaro Magalhães, nascido no Porto em 1951, tem publicadas cerca de 80 obras direcionadas para as crianças e jovens, entre poesia, contos e romances.
Premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Fundação Calouste Gulbenkian, Álvaro Magalhães é autor das séries juvenis "Triângulo Jota" , "Lucas Scarpone" e "Crónicas do vampiro Valentim", além de "O limpa-palavras e outros poemas", "Maldita Matemática!", "O brincador" ou "Todos os rapazes são gatos".



Podes ler algumas das suas obras na BIBLIOTECA da tua escola!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013


Concurso Nacional de Leitura 2013-2014
 
Como já vem sendo tradição a nossa escola vai participar neste ano letivo no Concurso Nacional de Leitura.

Destinado aos alunos do ensino básico e secundário, este desafio pretende estimular o treino da leitura e desenvolver competências de expressão escrita e oral junto dos alunos do 3º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário.


As obras selecionadas para a
1ª Fase do concurso são:

 

Ensino Básico:
 


Afonso Cruz, Os livros que devoraram o meu pai

Louis Sachar, O Polegar de Deus

 

Ensino Secundário:

 

Gonçalo Cadilhe, Nos Passos de Magalhães

Teresa Lopes Vieira, Gato persa, social club

 

 

 

Inscreve-te já na biblioteca da tua escola ou junto do(a) professor(a) de Português !

 

Hans Christian Andersen - uma viagem a Portugal


Hans Christian Andersen – Uma viagem a Portugal
 
Está patente na Torre do Tombo, em Lisboa, até dia 26 de outubro a exposição Hans Christian Andersen, uma iniciativa particular concebida pelo designer dinamarquês Sr. Niels Fischer com o objetivo de divulgar o escritor Hans Christian Andersen, na sua forma mais original e generosa.
A edição da exposição Hans Christian Andersen será associada a alguns documentos de arquivo da época em que Andersen visitou Portugal (1866).
Com cerca de 50 edições, (em Lisboa no CCB e na Biblioteca Nacional de Portugal), a mesma esteve já em exibição em várias dezenas de cidades e vilas portuguesas, tendo sido visitada por mais de 224 000 pessoas, muitas das quais participaram ativamente.
Hans Christian Andersen nascido em 2 de abril de 1805 em Odense, na Dinamarca, filho de pai sapateiro e mãe lavadeira, é autor de uma centena e meia de Contos para crianças e adultos, poeta-artista, romancista, dramaturgo e narrador de viagens.
Hans Christian Andersen visitou Portugal em 1866 a convite da família O'Neill, cuja amizade terá sido alimentada nos bancos da escola em Copenhaga.
Durante a sua estadia de cerca de dois meses em Portugal ( mais de metade dos quais passados em Setúbal, hospedado na Quinta dos Bonecos, então propriedade da família O´Neill) regista as suas impressões sobre várias cidades portuguesas (Lisboa, Setúbal, Palmela, etc.) fazendo grandes elogios à sua paisagem.
A partida é marcada para depois do Natal, após ter recebido carta de O’Neill que lhe assegura não haver qualquer caso de cólera no país e lhe envia «odorosas violetas de Portugal, como saudação da Primavera, que o espera em Lisboa».

Finalmente parte de Copenhaga em Janeiro de 1866, viaja por Hamburgo, Hanôver, Amesterdão, Antuérpia, Bruxelas e demora-se em Paris até 30 de Abril. Parte de caminho de ferro para Espanha, mas a capital espanhola não o entusiasma como da primeira vez.
A linha de caminho de ferro para Lisboa não estava completa. Havia que fazer uma parte da viagem em mala-posta. A viagem em mala-posta até Mérida é esgotante. Melhor instalado no comboio, atravessa a fronteira portuguesa, constatando a diversidade da paisagem natural e humana.
Faz excursões, vai ver «um palácio com grandes jardins, pertencente ao filho dum rico banqueiro», certamente do Conde de Farrobo então em ruínas, admira o solar e jardins do Marquês da Fronteiraque o recebe, apresentado por O'Neill, ouve cantar as freiras num convento (Odivelas?), percorre as áleas do cemitério do Alto de S. João, dá um passeio de carruagem nas cercanias de Lisboa.
Na sequência das suas impressões sobre esta viagem, Hans Christian Andersen publicou o livro intitulado “Uma Visita a Portugal em 1866”.Este livro foi traduzido do dinamarquês pelo setubalense João José Pereira da Silva Duarte, que também traduziu muitos contos de Andersen.
Eis algumas das suas impressões sobre esta viagem:
«Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha ! Era como sair da Idade Média para entrar no Presente».
 
"O sol brilhava no céu claro e sobre as águas tranquilas. Em frente erguia-se Lisboa nas suas soberbas colinas, como uma monumental ampliação fotográfica. À medida que nos afastávamos, evidenciavam-se os recortes como vagas enormes de casas e palácios.[…]".
As janelas do meu quarto dão precisamente para [...] uma parte do vale de Alcântara, sobre o qual, de construção arrojada e grandiosa, com arcos de altura vertiginosa, se estende o grande aqueduto: “Os Arcos das Águas Livres”. [...]
«Nos diversos cambiantes de luz, quando as nuvens suspendiam o seu véu de chuva sobre a terra, quando o sol luzia num céu límpido, ao entardecer, quando o matiz brilhante do arco-íris se espelhava no céu, como ainda iluminado pelo luar, o aqueduto era uma imagem majestosa e imponente que dominava toda a paisagem».
Deslumbra-se com a magnificência da floração no jardim, e pela primeira vez na Visita (como adiante nos momentos de exaltação), transborda em poesia:
«Como tem este país todos os encantos !
Da Dinamarca, a terra, as searas, os verdes campos,
O cacto, a oliveira, no Sul abundante,
Ares tão puros, raios de sol brilhantes.»
Diferente é a realidade da imagem que formara de Lisboa pelas descrições que lera. «Mais luminosa e bela» é essa realidade. «Onde estão as ruas sujas que vira descritas, as carcaças abandonadas, os cães ferozes e as figuras de miseráveis das possessões africanas que, de barbas brancas e pele tisnada, com terríveis doenças, por aqui se deviam arrastar ?» Nada disso. As ruas são «largas e limpas», as casas «confortáveis com as paredes cobertas com azulejos brilhantes de desenhos azuis sobre branco» e as portas e janelas de sacada «são pintadas a verde ou a vermelho, duas cores que se vêem por toda a parte, mesmo nos barris dos aguadeiros». Há vida e movimento.
No dia do Corpo Santo, «que ainda se festeja com grande pompa na capital portuguesa», caíram fortes chuvas e a procissão por mais duma vez se desordenou.
Contudo, pôde aí ver o rei D. Luís. «Era um belo jovem, muito louro, com um rosto especialmente doce, vestido de veludo e seda».
«Os candeeiros de gás nas ruas brilhavam, as lojas estavam iluminadas e pessoas dirigiam-se para o teatro de D. Maria II, na praça vasta e bela».
«Passámos pelo Passeio Público. Luzes brilhavam lá dentro, por entre as árvores verdes e odorosas. Chegava até nós o som da música.»
Setúbal - Através da pena sublime de Andersen percorremos a Setúbal do século XIX e os arredores.
 «Que profusão de cores e variedade de flores ! Até mesmo das fendas dos muros, desabrochavam cravos e cactos que no Norte só poderiam ter sido criados em estufas». Mas o calor atormenta-o : «De dia, só se podia andar cá fora sob a sombra das árvores de espessa folhagem, ou se se queria ir a qualquer parte onde incidia o sol, havia que caminhar vagarosamente e a coberto dum guarda-sol branco».
 «De manhã e à noitinha era, porém, um prazer passear, com o ar calmo e fresco. Sentia uma paz, uma tranquilidade que desejaria comunicar a todos os homens. No laranjal anoitecia cedo. As sombras instalavam-se por entre as árvores, cujas folhas formavam como que um enorme tecido de veludo, no qual se fixavam pirilampos maravilhosamente cintilantes. Brilhavam luzes nas casa brancas de Setúbal(…). Toda uma beleza que não podia ser reproduzida por pintura nem revelada por palavras.» «Mas que panorama, à medida que íamos subindo. Lá no fundo, os laranjais ao redor de Setúbal, o oceano, toda a baía e o rio Sado serpenteando.”
A majestosa natureza era como «a nave duma igreja no mundo grandioso e estranho de Deus». Ao regressar, com a pele ardente do sol e os membros fatigados, mas maravilhado, Andersen repousa no frescor da noite e todo se entrega à beleza que o cerca. «Como é bela a noite, amena e refrescante / E as estrelas de grandeza e brilho tais». E recordando-se que em breve terá de voltar à sua Dinamarca, escreve estes «versinhos» no livro da família O’Neill :
  «Lá no plano Norte verdejante,
Recordando todas as impressões vividas
Para Setúbal voará o pensamento distante
Para junto de todas as pessoas queridas».
 «Setúbal é mais bela vista da baía. Daí se vê a cidade em toda extensão, com as suas casas um tanto descaídas. [...]»
«Nuvens solitárias pairavam, carregadas, sobre a Serra da Arrábida, lançando sombras em baixo, no vale fundo. Quanto mais alto subíamos, mais alto se elevava no horizonte o vasto mar. Toda a natureza era de uma gravidade, de uma tranquilidade, imperturbada por qualquer ave. [...] »
A região de Aveiro é uma «Holanda portuguesa, alagada e plana, com canais abertos, mas falta-lhe o viço e a frescura deste país». O céu está cinzento e cobre a cidade espessa neblina, que o leva a crer-se «lá em cima, no Norte, e não no belo e quente Portugal». Observa aí «os primeiros belos rostos de mulher em Portugal», deve confessar em a Visita.
«Em Aveiro está-se perfeitamente numa Holanda Portuguesa, alagada e plana,             com canais abertos, mas falta-lhe o viço e a frescura deste país. [...]»
Coimbra eleva-se «como todo um ramo de esplendorosas flores» e é «a mais bela e interessante cidade que até então viu no país»
                «Coimbra é uma cidade que se deve visitar não apenas por uns dias mas durante algumas semanas, convivendo com os estudantes, procurando o ar livre e a bela natureza, isolando-se e deixando que na memória se desenrolem lendas e canções, recordando a história da cidade».
«Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria. Eu descobri aí a Dinamarca. Mas julguei reencontrar muitos pedaços queridos de outras belas terras...». Ao Palácio da Vila falta inteiramente beleza com as «duas chaminés acopuladas que mais parecem garrafas de champanhe». Mas «diferente, mais belo e pitoresco» é «o palácio de Verão de D. Fernando».  
«Todo o caminho da serra é um jardim, onde a natureza e arte maravilhosamente se combinam, o mais belo passeio que se pode imaginar».
 Monserrate, «verdadeira vinheta das Mil e Uma Noites, uma visão de conto de fadas»
                A mais bela e decantada parte de Portugal é a inigualável Sintra. “O novo paraíso”, denominou-a Byron. “Aqui a Primavera tem o seu trono”, assim a cantou o poeta português Garrett. [...]

segunda-feira, 10 de junho de 2013

10 de junho 2013

Senhor, falta cumprir-se Portugal.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português,
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal.
F. Pessoa
Portugal, um país mais resignado, envelhecido...



É o retrato de um país com um número avassalador de idosos – mais de dois milhões –, muitos dos quais a viver sozinhos e a sobreviver com uma pensão inferior ao salário mínimo nacional. Um país onde o rendimento médio das famílias (a preços constantes) baixou para 27.811 euros no ano passado, quase menos mil euros do que em 2011, e onde o número de pensionistas com reformas inferiores ao salário mínimo nacional está perto dos 1,5 milhões.
São "números que contam a nossa história mais recente" os que aparecem compilados no último "Retrato de Portugal", o terceiro do género traçado pela base de dados Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e que acaba de ser divulgado. 

Nevoeiro
 
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora! 
F. Pessoa